Por Paulo de Morais

Graças a Deus, chegamos a dezembro de um ano muito conturbado. É um mês de muita alegria, embora o ano em nada tenha colaborado, e sabe-se lá o que ainda nos reserva para esses últimos dias.

Dezembro é o mês em que boa parte da Humanidade comemora o “nascimento” de Jesus, é o mês de dar e receber presentes, além, é claro, de renovar as intenções para o próximo ano. Só que desta vez, parece que tudo está um pouco comprometido por causa do “fique em casa”.

Como será a comemoração de Natal para aqueles que ainda trazem em suas faces as marcas das lágrimas sem despedida, das lágrimas que teimam em rolar quando a lembrança do ente querido que partiu persiste em acompanhá-los? É neste momento que a dor bate forte e quase nos leva à lona.

Em meio a tudo isso, uma reflexão se faz oportuna. O ser humano precisa aprender a valorizar mais a presença dos seus entes queridos. Não é mais hora de deixar para depois aquele abraço no pai, no avô, no filho, no neto ou aquele beijo carinhoso na mãe, na avó, na filha, na neta ou, ainda, naquele amigo que está sempre presente (seja nas horas de alegria ou nos momentos de dor).

Quantas e quantas vezes deixamos de visitar um irmão que mora a um quarteirão de nós ou mora na cidade vizinha, só porque nosso tempo é exíguo?

Quantas vezes deixamos de nos avistar com aquele amigo, cujo abraço é de “trincar as costelas” só porque o que temos que fazer é mais importante que reservar alguns momentos para esse fervoroso abraço?

Pode acontecer que, quando nos dermos conta, o amigo não esteja mais lá. O mesmo pode se dar com o irmão, com a irmã, com os pais, os avós, os netos. E a lista seria imensa! Ou, por que não?, nós mesmos podemos partir a qualquer instante, pois a única coisa que sabemos é que essa partida é certa – o que ignoramos é o momento exato.

O que é certo no momento é que de algum ponto surgiu uma luz e por mais que as trevas tentem sufocá-la, mais forte ela se torna, dominando a escuridão e sendo o farol que brilha em mar bravio da tempestade humana, indicando o porto seguro onde, algum dia, aportaremos, tranquilos na consciência, para desfrutar o repouso merecido pela jornada a que nos propusemos.

No Evangelho de Jesus segundo São Lucas, capítulo 7, versículos de 1 a 10, podemos ler a passagem na qual o centurião romano manda emissários buscarem Jesus para a cura de um servo seu que se encontra doente, quase à morte. A mesma narrativa, embora com algumas diferenças insignificantes – que não alteram a essência do que se passou –, pode ser lida em Mateus, capítulo 8, versículos de 5 a 13.

Para o que desejamos destacar, fiquemos com a narrativa do segundo, pois relata o diálogo entre o próprio centurião e o divino Mestre, ou seja, é o mesmo que vem a Jesus contar sobre a situação que vive em casa e, ao fazê-lo, Jesus se propõe a ir curá-lo.

Ora, neste momento pelo qual passamos, tantas dificuldades, enfrentando essa pandemia causada pelo coronavírus, é hora de nos voltarmos para Jesus a fim de pedir-lhe que nos cure, que cure nossos parentes e amigos, que cure a humanidade – assim como no exemplo a ser seguido desse centurião romano. Tenho certeza que, do mesmo modo como agiu frente ao centurião romano, o Mestre agirá diante de nosso pedido: colocar-se-á a caminho com a cura.

Mas, de volta ao texto evangélico, quando Jesus se propõe a ir à casa do centurião, este mesmo objeta, pois não se considera digno de que Jesus entre em sua casa; mas que, de onde está, mande com uma palavra e o seu servo ficará curado. Quantas e quantas pessoas, em pleno Século XXI, não acreditam ser isso possível; mesmo entre muitos que vivem a orar, mas no fundo, não acreditam ser isso possível, duvidam que Jesus possa, de onde está, mandar com uma palavra para que qualquer ser humano encontre a cura. E não nos referimos apenas à cura física: há tantas doenças não físicas a serem curadas.

O centurião reconhece que Jesus, assim como ele, tem muitos soldados esperando sua ordem. Basta que se diga a um: faça isso, e ele o faz. Ou diga a outro: vá lá, e ele vai. Esses soldados do Cristo são os espíritos protetores ou como aprendemos desde criança a clamar na Oração de Caritas, “Que a Vossa bondade, Pai, permita aos Espíritos consoladores, derramarem por toda a parte a paz, a esperança, a fé”. São estes os soldados que o Cristo tem e que encaminha à casa do solicitante para atender seu pedido.

Jesus, diante das palavras do centurião, afirma que nem mesmo em Israel encontrara tanta fé.

O que é fé?

A fama de Jesus estendia-se, tanto que o centurião recorre a ele para realizar a cura de seu servo, mas que não se incomodasse em ir até sua casa, pois uma palavra seria suficiente para restabelecer a saúde ao doente – bastava-lhe ordenar a seus soldados espirituais e eles, atentos ao comando do chefe, obedeceriam incontinente. Jesus, reconhecendo a capacidade daquele homem em entender a espiritualidade, afirmou a seu respeito o destaque de sua fé, não comparável nem mesmo pelo povo de Israel, considerado pleno de fé.

Ocorre, porém, que a fé que Israel apresentava (e isso não difere muito dos dias de hoje) era a mesma fé que afirmava crer, mas não demonstrava a quem de direito a crença real de que podia alcançar o objetivo almejado, ou seja, a cura. Como já referido, se Jesus não se apresentar pessoalmente, com todas as provas incontestáveis, se não apresentar RG, CPF, passaporte etc. muitos não acreditam que Ele possa curar qualquer enfermidade.

A fé não é só afirmação de que crê no poder curador, mas demonstração, ou como dizia São Paulo, a substância das coisas desejadas, a comprovação das coisas que não se veem (Hebreus, 1:1). E podemos afirmar que tal centurião foi muito bem descrito pelo apóstolo Tiago na sua epístola, capítulo 1, versículo 6: “peça com fé, em nada duvidando”; e apresentou também o seu contrário: “porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e lançada de uma parte para outra”.

Quem duvida não alcança o que pede. Quem pede e não acredita que pode alcançar fica mesmo semelhante à onda do mar, sendo jogado de um lado para outro. Se compreendermos o mar como multidão, gente, compreenderemos bem o que nos quis transmitir o apóstolo, pois ficamos a dar ouvidos a tantos que nos dizem o que fazer, o que não fazer, ficar em casa, sair para trabalhar, dizem-nos em que acreditar, em que não acreditar, até perdermos o foco no ponto central, ou seja, nosso pedido ao Mestre que nos cure. E o resultado é somente um: não alcançarmos o que desejávamos. Depois é só pôr a culpa no único que está isento de culpa: Deus.

Por fim, reflitam na razão destas palavras e busquem no coração a resposta que vocês mesmo estão esperando, enquanto o barco do destino conduz essa vida atribulada. Não se desviem da resposta que venha do coração, que sei, amoroso. Ademais, não permitam, também, que ele, sozinho, suporte as consequências. Busquem na razão da consciência a natural aquiescência da resposta que dará o coração.

Vivam felizes o Natal!

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