Paulo de Morais

Nas palavras que seguem, pretendo refletir sobre um assunto leve, alegre, bem divertido. E, para tal, vou começar com algumas indagações bastante pertinentes. Você já convidou a morte para bater um papo? Tomar um café? Um chá (chá das 5, como dizem os ingleses)? Um refrigerante, cerveja, uísque? Sentar no sofá e bater um papo, assistir TV?

Não!

Talvez você esteja até pensando que este amigo aqui ficou doido de vez, “doido varrido”. Mas vou prosseguir com as indagações…

Você pretende fazer isso? Você pretende convidar a morte para um bate-papo?

O que é a morte? Será essa entidade com capuz e foice a andar à espreita de sua próxima vítima? Ora, isso é história da carochinha, a morte não é isso. Vamos deixar, desde logo, isso bem claro. Ter medo desse “espectro” é muito infantil. E uma infantilidade que não existe mais, pois as crianças de hoje não são mais aquelas “bobas” de antigamente que acreditavam em “bicho papão”, cegonha, Papai Noel – embora este último ainda guarde certo fascínio sobre a criançada… Pelo menos, acham divertido.

A morte não é, evidentemente, esse espectro medonho. Pra começar, rememoremos o que o espírito poeta Castro Alves, num poema maravilhoso intitulado “A morte”, pela psicografia de Chico Xavier, escreveu: “a morte é transformação” e justifica que “tudo em seu seio revive”, o que nos faz refletir a respeito dessa transformação.

Já outro poeta, Fernando Pessoa, no livro “Cancioneiro”, escreve: “A morte é a curva da estrada. Morrer é só não ser visto”.

Será que morre quem some na curva da estrada? Se alguém da sua família for para detrás da parede e vocês não mais a virem, tal pessoa terá morrido? Ou apenas não é mais vista? E se ela continuar falando com vocês? Ainda assim, se ela for e desaparecer atrás da parede, se para vocês ela estiver morta, não estará para si mesma. E pelo mesmo raciocínio vocês poderão estar mortos para ela, assim como ela estará para vocês, pois não se veem mais. E ambos os lados saberão que não morreram, apenas não se veem. Não é isso? E quando nos falamos pelo telefone, estando um em São Paulo e o outro em Madri, por exemplo, também não se veem (falo dos antigos aparelhos telefônicos, não dos smartphones, pois com estes é possível, além de ouvir, ver). Por isso, a imagem criada por Pessoa é fascinante, abre mesmo a nossa visão para a questão da espiritualidade, principalmente para encararmos, de frente, a morte, e, quem sabe, convidá-la a tomar um café conosco…

Isso porque todos esses que estão na espiritualidade permanecem presentes junto de nós, que os amamos e somos, por eles, amados. E se estão junto de nós é porque não estão mortos!

Se aceitamos a presença de todos eles junto de nós, mesmo sem os vermos, é porque não acreditamos na morte.

Das duas uma: ou acreditamos que estão vivos ou então devemos nos perguntar o que estamos fazendo aqui, pois estaremos perdendo tempo, quando podíamos estar realizando outras coisas mais úteis.

E se eles que tiveram uma vida humana como nós temos hoje e “morreram” estão aqui, mesmo sem serem vistos, por que nós havemos de morrer?

Será que alguém tem medo de se ver frente a frente com a morte?

Seja qual for a resposta pessoal, não há problema. Eu, particularmente, creio que isso não ocorrerá, simplesmente porque a morte não existe.

Encarar a morte como se encara a vida é atitude de quem sabe que nosso Pai Celestial não nos criou para, em determinado momento, pôr um fim à nossa existência. Que pai faria isso com o filho? Se é inconcebível a ideia de um pai terreno fazer isso ao filho, como pensar tal absurdo em relação ao Pai Celestial.

E nada de usar como argumento a história de Abraão, pois este não criou o filho para matá-lo. A história de Abraão – que me perdoem os que ainda acreditam na ideia de que Deus vive a “testar” seus filhos na fé – é preciso ser entendida pelo prisma espiritual. Mas isso é assunto para outra ocasião.

Aqui, quero relembrar outro personagem histórico, que, dizem, é o próprio Abraão reencarnado. Além de Abraão, teria encarnado também em Moisés e em Elias, além de outros… Falo de João Batista. Para tal, transcrevemos a narrativa evangélica de Marcos conforme o capítulo 6, versículos 17 a 28.

Herodes, por causa de Herodias, mulher de seu irmão Filipe, porquanto Herodes se casara com ela, mandara prender a João e atá-lo no cárcere.

Pois João lhe dizia: Não te é lícito possuir a mulher de teu irmão.

E Herodias o odiava, querendo matá-lo e não podia.

Porque Herodes temia a João, sabendo que era homem justo e santo, e o tinha em segurança. E quando o ouvia ficava perplexo, escutando-o de boa mente.

E, chegando um dia favorável em que Herodes no seu aniversário natalício dera um banquete aos seus dignitários, aos oficiais militares e aos principais da Galileia, entrou a filha de Herodias, e, dançando, agradou a Herodes e aos seus convivas. Então disse o rei à jovem: Pede-me o que quiseres e eu to darei.

E jurou-lhe: Se pedires mesmo que seja a metade do meu reino, eu ta darei.

Saindo ela, perguntou a sua mãe: Que pedirei? Esta respondeu: a cabeça de João Batista.

No mesmo instante, voltando apressadamente para junto do rei, disse: Quero que, sem demora, me dês num prato a cabeça de João Batista.

Entristeceu-se profundamente o rei; mas, por causa do juramento e dos que estavam com ele à mesa, não lha quis negar.

E, enviando logo o executor, mandou que lhe trouxessem a cabeça de João. Ele foi e o decapitou no cárcere, e, trazendo a cabeça num prato, a entregou à jovem, e esta, por sua vez, a sua mãe.

João, nesse caso, foi degolado, porque, segundo a espiritualidade, quando fora Moisés e Elias mandara cortar muitas cabeças. Era preciso, pois, pela imutável lei divina que tivesse uma de suas cabeças também golpeada de morte.

Vendo a situação de João Batista, sem levar em conta a lei da reencarnação, é extremamente injusto que tal tenha ocorrido – do mesmo modo como é injusto que, até hoje, muitas coisas ocorram e levem a óbito muita gente. Todavia, pelo entendimento da reencarnação pode-se entender e tornar claro como funcionam as leis espirituais. E são essas leis que devemos procurar entender para, sob o seu domínio, viver.

O próprio João, antes mesmo de ser preso por Herodes, declarara ser preciso que ele desaparecesse para que Jesus crescesse. Sua tarefa estava finda enquanto que a missão terrena do Mestre apenas começava. Nada mais correto. É preciso igualmente que não nos esqueçamos que, a esse tempo, Jesus era considerado um ser humano qualquer, como os outros homens.

Mas sobre João, já que, a esse mesmo tempo, era considerado um profeta enviado por Deus, se fosse possível evitar a sua morte injusta, como seria feito? Essa questão foi proposta por um amigo meu – por acaso também chamado João – durante um café nos tempos da Faculdade de Direito. Óbvio que nós debatíamos a questão sob o prisma jurídico e o João, com seu espírito arguto, desembainhou essa pergunta à queima-roupa.

A resposta a teve na mesma intensidade.

Pelo raciocínio lógico tudo pertencia ao rei, e ele estava disposto a premiar Salomé (sabe-se hoje que esse era seu nome) pela dança. Quando prometeu dar-lhe o que pedisse e estipulou até metade do reino, Herodes ficou comprometido, pois “palavra de rei não volta”, bastasse que assim ela manifestasse seu desejo.

Quando a moça pediu a cabeça de João, Herodes ficou triste e se viu preso na própria cilada.

Juridicamente, entretanto, há uma saída para que o rei cumpra a sua palavra e não mate João. É um dos Princípios do Direito. Bastava-lhe informar à jovem que sua promessa fora qualquer coisa, até a metade do reino, só que o referido pedido fazia parte da metade do reino não disponível.

Essa é a saída jurídica para o rei.

Nesse momento, o meu amigo João disse que, em razão disso, o café, naquele dia, era por sua conta. Mas eu insisti que havia outra questão. E esta era: Por que Salomé não pediu a metade do reino de Herodes? O que tem mais valor: a cabeça de João ou metade do reino Galileu? O reino significa terras, posses, luxo, e tudo mais que as mulheres adoram.

A cabeça de João significa livrar-se de um incômodo.

Mas será que com a metade do reino não seria possível livrar-se de qualquer incômodo? E com a cabeça de João teria metade do reino? Dúvida cruel. O que passou pela cabeça de Herodias quando aconselhou a filha a pedir a cabeça de João num prato? Por que ela agiu assim?

Como disse, Herodes, cujo caráter hoje pode-se dizer que equivalia a uma velha raposa, ao ouvir o pedido da jovem, percebeu que caíra em sua própria cilada, pois havia prometido até metade de seu reino.

Como se sabe, nessa época, a região era dominada pelo império romano. Os romanos quando subjugavam qualquer outro reino passavam a ser donos de tudo; permitiam apenas os títulos de alguns subjugados. Isso ocorria também na Galileia, o que significa que Herodes, apesar de rei, não tinha mais reino algum, não tinha posse alguma. Herodias sabia disso. Portanto, se aconselhasse a filha a pedir metade do reino, sabia que esta estaria sujeita a receber metade de nada. Quanto é metade de nada?

Quando fosse época de realizar a tradição, o rei, com a sua esperteza, diria não ser possível cumprir a palavra porque os romanos haviam tomado tudo, nada mais lhe pertencia. Por isso, foi apanhado em sua própria arapuca.

E, por fim, para esclarecer que Herodias aconselhou a jovem a pedir a cabeça do Batista, ela o fez por vingança, pelas chamadas de atenção por parte de João quanto ao fato de ter abandonado o marido para ficar com seu irmão. E Salomé acatou o conselho por despeito, pois não encontrou guarida nos braços do Batista quando, para ele, se insinuava.

E João – o precursor –, apesar de ser o maior dos nascidos de ventre de mulher, teve sua cabeça cortada e servida num prato. Mas, como a morte não existe, o próprio João já voltou à terra em um novo corpo, pelas vias da reencarnação.

Que isso nos sirva de lição.

Então, volto a perguntar: que tal convidar a morte para um café? Sentar-se no sofá, bater um papo na sala de casa…

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