Paulo de Morais

A humanidade busca no seu cotidiano, por seu natural instinto, algo de novo em todos os aspectos, seja na Política, na Ciência, na Filosofia, na Religião, na Educação, na Cultura, e, até mesmo, na música, que, inclusive, já é usada como terapia. Ela exerce sobre o ouvinte que a ouve com verdadeira devoção o poder de transportá-lo no tempo.

Quantas vezes na vida estamos em situação tal que não encontramos, em coisa alguma, aquilo que nos faz, como bem cantava a imortal Beth Carvalho, na majestosa composição de Paulo Vanzolini, “Levanta, sacude a poeira e dá a volta por cima”!

Quando nos deixamos enredar por caminhos tortuosos, nos quais a mente humana não vislumbra uma saída, momento em que todo brilho do olhar nos escapa, a felicidade flui por entre os dedos, pois até parece que o mundo inteiro se volta contra nós; quando essa situação aparece em nossas vidas e até a vontade é de enfiar a cabeça na terra e se esconder… Momentos em que nem ombros amigos nem quem chore conosco… Quem nunca passou (ou passa) por momentos assim?

Não há. E isto é uma certeza inabalável. Não há quem não viveu momentos assim. Todo ser humano já passou por isso, os que viveram e os que vivem. Os que vivem e os que hão de viver hão de passar por momentos assim.

Mas que adianta a revolta, a tristeza, a angústia? Que adianta enfiar a cabeça na terra e morrer? Nada! O melhor mesmo é erguer a cabeça, ciente de que tudo isso passará. E o sol voltará a brilhar, as estrelas reaparecerão na noite escura em profundo contraste para demonstrar que não estamos sozinhos nesse imenso universo.

Em momentos tais, quando a tristeza nos invade o espírito, a certeza que nos vem é que podemos vencê-la com uma arma infalível, daquelas que – parafraseando os mineiros – é “tiro e queda”. Um santo remédio, a custo zero. Falo do poder que tem a música para nos tirar do torpor e nos encher de vida.

Basta citar dois simples exemplos: o povo francês e o rei do rock.

Conta-se que La Marseillaise, o Hino Nacional da França, foi composto, em 1792, como canção revolucionária e que atingiu grande popularidade durante a Revolução Francesa, especialmente entre as unidades do exército de Marselha. Inicialmente seu título era Canto de Guerra para o Exército do Reno, que deveria ser um estímulo para encorajar os soldados no combate de fronteira, na região do rio Reno. Os soldados marselheses levaram-na até Paris, pois a cantaram durante todo o percurso. Mais tarde foi entoado durante a famosa tomada do Palácio das Tulherias. Finalmente, em 1795, foi instituída como Hino Nacional.

Relembramos esses fatos para destacar que – composta para encorajar os soldados no combate – tal composição atingiu, em cheio, seu objetivo, pois não há quem ouça essa melodia e não é tomado pela vontade irrefreável de sair marchando para a luta.

Uma pequena tristeza resta na evolução da música pelo planeta. É que os antigos e valorosos “LPs”, o famoso “vinil” perdeu espaço. Não falo isso por nostalgia pura e simples. É claro que a modernidade com o som digital trouxe muito mais qualidade de som para nossos ouvidos. Todavia, não podem trazer, grafadas nas contracapas (porque não as tem), as inumeráveis histórias sobre as composições, as biografias dos compositores, e tantas outras informações que nos enriquecem, sobremaneira, a cultura.

Pois bem, foi assim, numa contracapa de um antigo LP, que tomei conhecimento de uma breve história, que passo a narrar.

Como se fosse nos filmes de “Star wars”, “Há muito, muito tempo, numa galáxia distante…”

Não, nada disso. Não faz tanto tempo assim. Muito menos tal se passou numa galáxia distante. O fato é que ainda não existiam os modernos (para aquela época) CDs. Música era no rádio, no vinil e nas fitas k-7.

Eu, como gostava de viajar e ir pelas estradas ouvindo umas modas caipiras, tinha, é claro, minha coleção de fitas k-7. Até ganhei do meu irmão, que é marceneiro, um belo estojo, caprichosamente envernizado, no qual cabiam algumas fitas, com caixa, inclusive. Depois, tirei as caixas das fitas para caber uma quantidade maior.

Era meado dos anos 90 e meu amigo Francisco, conhecido no meio por “Assis” (pelos mais chegados “vovô Smurf”), ofereceu-se para gravar em fita k-7 algumas músicas, não escolhidas por mim, mas por ele. Forneci as fitas e, dias depois, ele me entregou as fitas gravadas. Entre as canções, uma chamou muito a atenção. Era o Rei do Rock, cantando (ou pelo menos, tentava cantar) “Are You lonesome tonight?”. Digo “tentava” – porque ele só conseguia rir durante a apresentação da música.

O Assis me contou que foi durante um show em Las Vegas que a gravação foi feita. Um dia, ele fez questão de me apresentar o LP e lá estava, na contracapa, a história. Elvis fazia o seu show em Vegas e, muito brincalhão, ele trocava, às vezes, palavras e até frases inteiras das músicas por algo “infame”.

Durante a interpretação dessa melodia não foi diferente. Ele trocou algumas palavras de uma frase musical e riu da própria criatividade improvisada. Só que na primeira fila estava uma pessoa que entrou na brincadeira, e passou a fazer aquilo que o cantor sugeriu com a improvisação. Elvis, então, não se conteve, foi dominado pela insopitável vontade de rir. Enquanto ele ria, os músicos seguiam firmes na apresentação.

Depois de contar essa história, na contracapa do LP, pude ler a indicação de que essa música era um “santo remédio” para os momentos de tristeza, ou seja, quando estivesse muito, mas muito triste mesmo, devia ouvir essa canção, pois quem escrevia garantia a mudança do estado emocional. Será? – pensei. Confesso. Assis simplesmente me olhava por detrás daqueles óculos imensos que usava.

Passou-se o tempo. Foram dias. Meses. Anos.

Certa feita, profundamente triste (já nem me lembro com o quê), lembrei-me da música e da sua “capacidade para mudar o estado de ânimo”. Peguei minha fita, coloquei pra tocar e fiquei quieto. Quando as gargalhadas do Rei do Rock se tornaram mais fortes foi irresistível: meu ânimo mudou. Mudou completamente. A tristeza fora “baixar noutro terreiro”.

Hoje, aproveitando aqui a oportunidade, conto para vocês esse fato no objetivo de que creiam em mim (ou não – como diria o flautista Marcelinho) que esta gravação de “Are You lonesome tonight?” é mesmo um santo remédio contra a tristeza e decepções da vida. Para quem quiser seguir a orientação do Marcelinho, sugiro fazer o teste. Basta, para isso, procurar na Internet “Are you lonesome tonight? (live in Las Vegas)”, aumentar o volume e curtir a incomparável voz do eterno Elvis Presley.

Nota: os citados são de colegas de trabalho nos anos 90.

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