Capítulo I

Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem.

Paulo, epístola aos hebreus, 11: 1

A fé é a essência de tudo. Por essas palavras, o apóstolo Paulo nos quer chamar a atenção para o que podemos dizer ser o primeiro contato, a primeira ideia, a primeira situação com a qual se depara o ser humano ante qualquer dificuldade na vida.


Este versículo abrange todos os aspectos nos quais pode o homem intrometer-se, pois que não determina ele uma situação específica, não delimita uma ação própria, mas afirma ser a fé a certeza das coisas que se esperam, a convicção (e aqui acrescentaríamos o termo firme) de fatos que se não veem, isto é, aquilo que está ainda oculto aos olhos materiais, sejam esses fatos quais forem.


É este versículo uma introdução ampla para o que o apóstolo vai declarar no final, depois de identificar na história humana, fatos e coisas que pelas mãos dos antigos vieram a acontecer, fatos e coisas que podiam e eram considerados impossíveis, talvez até mesmo por aqueles que foram deles e delas autores humanos, mas que, por meio dessa força invisível assente dentro de si mesmos, foram tornados realidade, ou seja, tornaram-se patentes aos olhos e tatos de todos os homens.


Hoje, quando aqui escrevemos, no limiar do século XXI, sobre essas palavras, sobre todo o texto atribuído a este apóstolo do Cristo que se tornou baluarte da fé, exemplo inigualável daquilo que escreveu a principiar por este mesmo versículo sob análise, tal foi e tal vem a ser o tamanho da crença que tinham que nós mesmos, após tantos séculos, somos levados a crer na força de tais palavras, na força de tal crença que, se a conseguirmos imitar, colocaremos, palpável, ao alcance de nossas mãos todo nosso objetivo, tudo aquilo que desejamos e que só existe no plano imaterial, qual seja, no plano das ideias.


E o que se pode trazer do plano das ideias para o plano físico? Ao ler as palavras do apóstolo identificamos que a resposta a esta inquietante questão seja resumida em uma palavra apenas: tudo.


A fé, longe de ser uma palavra aplicada ao campo da religião, deve ser aplicada ao campo da vida, dos objetivos do homem, dos objetivos sociais, mundiais. Deve o homem deixar que ela vá além dos muros que a cercam dentro das crenças religiosas e ganhe as ruas, as calçadas, as casas, as mentes de muitos que – embora possam viver à sombra de um templo religioso – não têm a crença dentro de si mesmos.


Empregar o termo fé não deve mais ser ouvido como termo fixado à religião, pois ela própria (a religião) devia ser o meio de transporte da fé para as ruas, deixando os templos onde é empregado, é usado, é falado, mas, geralmente, não praticado.


Sem apontar qualquer ato humano que se volte contra essa expressão do pensamento do apóstolo, deseja-se tão somente tornar mais clara a ideia que o apóstolo dos gentios desejou em sua vida de propagador do Evangelho. Quem lê suas palavras, facilmente se depara com esta situação: ele jamais se declarou dono desta ou daquela ideia que pertence ao Cristo, mas orgulhou-se em ser seu propagador, haja vista o fato de proclamar que já não era ele quem vivia, mas, sim, o Cristo que vivia nele. Entregou-se de tal forma à propagação do Evangelho que fez desaparecer sua figura própria para nele verem a figura do Cristo.


Longe – sabemos – estamos nós deste mesmo desiderato; todavia, nada nos impede de seguir os exemplos e as atitudes desse apóstolo e procurarmos auxiliar no entendimento de suas próprias palavras bem como no entendimento dos ensinamentos do Cristo.

O próprio Cristo que, antes de Paulo, já afirmara ser a fé o móvel de transporte de qualquer monte para o mar. Isto significa que, usando de termos apropriados ao entendimento dos que o ouviam, falava para todos eles e para os de futuro que viessem a tomar conhecimento de Suas palavras.


Como poderia o homem fazer mover um monte e, ele próprio, atirar-se ao mar?


A razão logo cria empecilhos a essa possibilidade se nos detivermos somente aos termos físicos, tais como monte e mar, e termos abstratos como o andar – ainda mais absurdo o andar do monte para lançar-se ao mar.


Já nos dias atuais, até isso mesmo é possível diante da animação cinematográfica. Se se ilustrar tais palavras do divino Mestre, literalmente é possível pela animação cinematográfica. Mas, naquela época, tal ideia sequer existia na cabeça daqueles homens. Nem por isso impediu que o Cristo usasse tal figura – de um monte saindo de onde estivesse colocado, caminhando em direção ao mar e nele se arrojando, pura e simplesmente porque alguém ali o desejara.


Se assim fossem entendidas tais palavras do Mestre, poderia ele ser julgado louco por qualquer ser humano dotado da mais ínfima inteligência.

Não obstante, suas palavras atravessaram séculos e séculos, resistiu às condenações que sobre elas foram lançadas, e chegaram ao Século XXI, para hoje, não só serem literalmente possíveis pela animação cinematográfica, serem entendidas como devem, neste momento, ser compreendidas. Tal compreensão resulta de que, ao empregar o termo monte, Jesus se referia a qualquer dificuldade, a qualquer óbice, que se apresente àquele que, munido da firme vontade de vencer, seja afastado por essa vontade. Esses obstáculos podem ser uma doença (quaisquer delas), um impedimento de promoção no trabalho, um desajuste na união familiar, e tudo mais que a mente humana for capaz de produzir.


Importante que se diga, apesar de não ser nem pensado pelas criaturas humanas, é que há uma questão a ser colocada para que tais criaturas atentem-se a isto: a fé, mesmo aquela destacada por Jesus, que seja do tamanho de um grão de mostarda para realizar tão impressionante fato de transportar um monte ao mar, implica na responsabilidade. Tal consequência jamais deve ser olvidada. É esta que delimita e amplia os poderes daquela. Amplia no sentido de criar muitos e novos horizontes sempre banhados pelo sol divino na prática de tudo que for bom e útil para si, para os seus e para a humanidade. Limita no sentido de aplicar às palavras do Cristo o real valor para não simplesmente tirar de seu lugar o monte para lançá-lo ao mar, porque isso pode trazer consequências graves a todos. Nesse exemplo factício: alterar o sistema ecológico, pois, apesar de poder ser um obstáculo para alguns, o monte pode ser sustentação de vida para muitos e equilíbrio ecológico onde se encontra.

Agora, pensemos: se uma doença física, representada por esse monte, pode ser eliminada pela fé, que prejuízo pode essa eliminação causar se, a priori, traz um benefício a alguém?


Não se discute aqui o benefício que poderá advir da transposição desse monte entendido na doença física, mas na sua responsabilidade. O ser humano deseja mais que tudo ter saúde, bem-estar, recursos financeiros, amor, e tudo isso para poder viver na chamada qualidade de vida. E por que nem todos têm? E por que quando se consegue uma dessas coisas, perde-se as outras? Veja-se o exemplo de alguém que deseja ser famoso. Ora, junto à fama vem o assédio dos fãs, da imprensa, dos falsos amigos ou de ditos oportunistas. A essa altura da vida, foi-se a paz, o sossego tão almejado por todos os seres humanos. Desse desassossego vem a reclamação, pois perdeu-se a paz, essa pessoa já não consegue sequer fazer uma caminhada matinal para manter a flexibilidade dos músculos porque aonde vai sempre há alguém a interrompê-la para uma “selfie”, para o registro de que encontrou uma personalidade. Divulgado o lugar do seu passeio matinal, ele se torna cheio de outras pessoas, outras lentes fotográficas, que ali passam a frequentar com o mesmo objetivo: encontrar a personalidade, o ídolo – seja que nome for.


Até pode parecer agradável num primeiro momento, mas, fatalmente, chegará o dia em que tal famoso estará com os nervos à flor da pele pela – para ele – perturbação. E sua liberdade para ir aonde quiser e de lá voltar sossegadamente? Já não anda mais sozinho porque vive acompanhado de dois, três ou mais, seguranças.


E se tal personalidade for casada e for flagrado pelas câmeras dando atenção (e isso pode ser um autógrafo, um abraço, um simples “oi”) a uma pessoa do outro sexo? O que se dirá na manchete a ser divulgada pela mídia? A depender do que for publicado, lá se vai aumentar a estatística do número de divórcios no país, além, é claro, das possíveis inumeráveis brigas entre o casal no reduto do lar.


Mas há que se pensar: tal pessoa desejou a fama e deve agora suportar tudo que junto dela vem. Sim, se a pessoa que desejou a fama e conseguiu souber lidar com tudo isso, tal fato garante que as que a cercam também tenham equilíbrio? Será que tais pessoas não pensem em exclusividade? Será que são capazes de compreender a popularidade do ser que está ao seu lado e que, apesar da fama, ali permanece?


O mesmo se dá, dentro das devidas proporções, com a responsabilidade a ser aplicada no caso do nosso tema, ou seja, a fé para remoção de uma doença.

Equiparando a doença à fama, podemos dizer que a pessoa trabalhou com bastante afinco para consegui-la. Estranho isso, não é? Trabalhar com afinco para ter uma doença! Se analisarmos a situação nua e crua tal ideia merece o mesmo sinônimo a pouco aplicado às palavras de Jesus: louca.


Entretanto, se deixarmos de lado a primeira reação e permitirmos que a mente raciocine, veremos que não é tão louco assim, haja vista que o ser humano tanto descuida da saúde física, quanto da mental, relegando a plano muito mais inferior a saúde espiritual.
Não cuida da saúde física ingerindo tantos alimentos que – em excesso – causam distúrbios ao organismo físico; despreza a saúde mental, alimentando, regando, tratando com desvelado carinho pensamentos destrutivos, pensamentos perniciosos, os quais, cada vez mais, avolumam-se na mente e acabam por gerar muitas das chamadas doenças mentais, além de, por diversas vezes, trazer já, de imediato, ao plano físico, situações embaraçosas para essas pessoas, pelo simples fato de externar pensamentos que sequer deviam existir; e o que se pode dizer do desprezo à saúde espiritual?


Hoje em dia, negar a existência do espírito ou alma que habite o corpo humano é colocar-se num ambiente de quase desolação social. Acreditamos que muitos neguem tal realidade por ignorância quase que completa do fato, pois não sabem sequer explicar porque não acreditam. Para os que estudam um pouco de filosofia, de comportamento humano, tal falta de explicação é prova cabal da ignorância. E dissemos – quase que completa do fato porque, principalmente no Brasil, a explicação do que vem a ser o espírito (ou alma), a espiritualidade e tudo a esse terreno relacionado, está sobejamente difundido. É como diziam os antigos: só não aprende quem não quer.


Vimos de dizer que a fama pode ser comparada à doença quando bem trabalhado para ser atingida e julgamos dar um introito bem apropriado do que dissemos para que, finalmente, possamos explicar nosso raciocínio.


Apesar do espanto que nossas palavras possam causar, quando dissemos que as pessoas trabalham com bastante afinco para ficar doentes, supomos que com o parágrafo introdutório – pelo menos para os que o leram com o espírito desarmado, procurando nos entender nesse bate-papo que organizamos a respeito do tema da fé com base nas palavras do apóstolo Paulo aos hebreus – já alcançamos boa parte do nosso intento.


Resta-nos explicar, com outras palavras, que com as atitudes como nos exemplos acima mencionados, o espírito (ou alma) vai adquirindo para si mesmo as doenças que, por fim, vem expiar no corpo físico, a não ser que alguém prefira colocar a culpa dessa doença em Deus, no Cristo, nos seus anjos e santos, em qualquer outro ser – menos em si mesmo, porque não se justificaria a pessoa fazer mal a si mesmo.


Sim. Nada justifica que a pessoa faça mal a si mesma; todavia, já de há muito esclarecem os preceptores espirituais que uma pessoa só consegue fazer mal a si mesma. Concordamos que tal afirmativa, a priori, causa estranheza, mas, com o avanço de nossos estudos nas questões espirituais, fomos, aos poucos, deixando o antigo modo de pensar para aceitar a verdade desta primícia. Nesse campo, nossos estudos passaram pelo conhecimento do que é o bem e do que é o mal, pela abrangência do que é criação de Deus e o que seria hipoteticamente criação humana, para desaguar no entendimento de que em todo o Universo só existe o Bem, sendo o mal – pode-se dizer – uma criação filosófica para o entendimento daquilo que em Deus – o Pai eterno – seja somente o Bem.


Nesse sentido, explica-se o fenômeno de que a pessoa passou (ou passe) largo tempo da sua existência criando uma doença que, mais cedo ou mais tarde, se manifestará no seu corpo humano.


Assim, para muitos a doença é um mal que tem por única função punir o ser humano, enquanto que para outros a mesma doença vem a ser uma correção de rumos na existência humana. Para os primeiros seria o mal; para os segundos, seria um bem, ou, em outras palavras, um mal benéfico, uma vez que obriga o espírito encarnado a valorizar os instrumentos que o Pai Celestial lhe concede para seu aprendizado e melhoramento. Só nisto, cremos que estejam todos em acordo: ninguém neste mundo saiba exatamente o que vem a ser a doença para o ser humano na visão de Deus único e eterno. Cremos que ainda muito nos será preciso galgar em conhecimento de ciência universal para atingirmos tal entendimento. Mas não seja isto que nos faça desanimar, pois, pelo progresso a que estamos submetidos, mais cedo ou mais tarde, temos todos que retomar o caminho. E cá entre nós, como se segredo fosse, não é melhor retomar o caminho o quanto antes? Para tal, estudar e conhecer as leis universais e imutáveis que o Pai Celestial decretou e nos regem a existência.


Ainda sobre a questão da responsabilidade, devemos trazer aqui as palavras de Jesus quando nos disse tudo ser possível àquele que crê. Tais palavras, trazidas para a linguagem moderna, nada diferem em sentido de linguagem clássica como se encontra impressa na Bíblia Sagrada. Nelas podemos observar que o Cristo disse “tudo”, ou seja, não empregou nenhuma ressalva. Ele não disse que uma coisa nos fosse possível se crêssemos, exceto… Vejam todos habituados a ler o Evangelho que não há exceção. Ele disse tudo – repetimos.


Por este termo conclui-se que não só as coisas consideradas boas podem ser alcançadas, mas também as “más”. Exemplificamos: cremos que todos considerem um homicídio algo reprovável, mau, que deva ser banida tal prática pela sociedade, para que possamos vivem em paz, tranquilamente. Por assim pensar não podemos fazermo-nos de tontos em não concluir que aquele que comete um homicídio, que é – repetimos – uma atitude má, deixasse de acreditar que seria possível eliminar seu inimigo e, no caso, só ele poderia fazê-lo. Tal indivíduo é desprovido de fé, no sentido de crença na possibilidade de tal suceder? Temos certeza que a resposta a esta indagação é não. Daí, talvez, o lamento do Cristo ao dizer que os filhos das trevas sejam mais ousados que os filhos da luz, lembrando que Ele próprio declarou-se a luz do mundo. Isto fez por representar no nosso planeta o Pai Celestial, visto que Jesus é o nosso Cristo – o que equivale a dizer que Ele é o fundador e governador deste orbe que habitamos, e é o único encarregado de nos conduzir ao Pai, diante de suas próprias palavras: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai se não for por mim”.


Neste sentido, plenamente de acordo as palavras escritas por Paulo aos hebreus, quando disse ser a fé a certeza das coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem, com as de Jesus.

Mas onde Paulo afirma sobre a responsabilidade oriunda dessa crença de que tudo seja possível?

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